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A MORDIDA NOS PRIMEIROS ANOS DA INFÂNCIA

23 de novembro de 2019

Um assunto bastante recorrente e muito delicado nas escolas de Educação Infantil refere-se às mordidas entre crianças, especialmente no segundo e terceiro anos de vida. Pais e profissionais costumam mobilizar esforços para que as crianças superem esta fase e comumente angustiam-se quando suas intervenções parecem não surtir efeito rapidamente. É importante ressaltar que, mesmo sabendo que este comportamento é comum à faixa etária, entendê-lo melhor para se chegar a uma intervenção eficaz é fundamental ao educador e familiares.
Os dois primeiros anos de vida constituem um momento crucial na aquisição da consciência corporal, ou seja, da noção dos limites do próprio corpo. Inicialmente, é através da boca que o bebê explora o ambiente e passa a descobrir o que o constitui e o que constitui o outro. Dessa forma, a região da boca é aquela mais rica em sensações. O nascimento dos primeiros dentes intensifica a sensibilidade da região, provocando desconforto e a necessidade de descarregar a tensão ali acumulada. Justamente nessa fase as mordidas tornam-se mais comuns entre as crianças. Se nos primeiros meses o choro era o único meio de expressar descontentamento, frustrações, desejos e necessidades, agora a mordida acaba assumindo também esta função. É esperado que, conforme a criança vá adquirindo maior domínio verbal, as expressões por meio de mordidas vão diminuindo.
Ao morder o colega, uma criança pode estar impedindo-o de tomar um brinquedo de sua mão, pode estar reagindo contra uma aproximação desconfortável, ou pode estar manifestando intenso afeto (como se quisesse “tomar o outro para si”). Pode ainda estar tentando extravasar o excesso de ansiedade causado por alguma mudança significativa em sua vida, ou simplesmente descarregando um pouco da tensão provocada pela grande excitabilidade da região oral.
Como a mordida dói no outro e não nela própria, a criança pequena não consegue entender a real dimensão do dano causado, já que ainda é incapaz de se colocar no lugar do outro. Muitas vezes, ao perceber que sua atitude causou um grande impacto no ambiente, pois provocou o choro intenso do colega, o susto e mobilização do professor e a preocupação da família, a criança acaba se sentindo mais atraída a morder. Por esta razão, não é fácil encontrar meios eficazes de intervenção.
A melhor estratégia é, inicialmente, observar e conhecer bem a criança, buscando entender por que razões o comportamento de morder vem aparecendo.
Se for constatada a necessidade de aliviar o desconforto da região oral, mordedores e a oferta freqüente de alimentos mais sólidos podem ajudar. Quando se verifica ansiedade elevada, a família pode intervir procurando estabilizar ao máximo as rotinas e organizando o cotidiano da criança de modo mais previsível a ela. Vale ressaltar que o ser humano tende a se sentir mais seguro e menos ansioso quando consegue saber o que irá lhe acontecer.
Intensificar atividades físicas e a exploração de materiais interessantes é uma outra forma que pais e professores podem utilizar para promover descarga de ansiedade e para desviar o foco de atenção dos conflitos com o outro para a exploração do espaço e dos recursos. Então, são muito bem vindas atividades como amassar papel, rasgar folhas de revista, pintar espaços amplos com tinta ou giz de cera, brincar com argila, água, bexigas, bolas de sabão, areia seca e molhada. Outra sugestão é explorar materiais diferentes dos habituais, como plástico bolha, teclados de computador, telefones, máquinas fotográficas e calculadoras já inutilizados.
Todas essas medidas funcionam de modo a prevenir mordidas e controlar sua intensificação. Entretanto, quando não for possível evitar e a mesma ocorrer, é importante que o adulto intervenha de forma séria, pontual e serena.
Com poucas palavras, deve-se dizer que aquela atitude não foi aprovada e que provocou algo ruim. Pode-se dizer, por exemplo, “eu não gostei do que você fez, morder machuca o colega! Veja, ele está sentindo dor”. É importante que a expressão facial do adulto indique seriedade, pois a criança é muito sensível à linguagem não verbal, mas não se deve mostrar descontrole, raiva ou angústia. Quando a criança já vem repetindo tal comportamento, além dessa intervenção, o adulto pode manter a seriedade e distanciá-la por poucos minutos da brincadeira ou da interação com os colegas, a fim de que ela perceba que sofreu uma perda por sua atitude. Passado esse período, que deve ser curto, sugere-se retomar brevemente o assunto, resgatando que morder uma pessoa provoca dor. Com as crianças um pouco maiores, ensinar a pedir desculpas e a ajudar no cuidado com o ferimento causado também são estratégias importantes.
Quanto à criança que foi mordida, o adulto deve acolhê-la, dizendo que entende seu sentimento de dor e, assim que ela estiver calma, dizer que a atitude do colega não foi adequada, mas que já se conversou com ele e que acredita-se que o mesmo irá agir de modo diferente.
É fundamental que escola e família utilizem os mesmos procedimentos. Além disso, os adultos devem evitar falar excessivamente sobre o assunto, tanto diante da criança que mordeu quanto diante da que foi mordida. Uma vez realizada a intervenção, o assunto deve ser encerrado e a interação deve voltar a ocorrer normalmente, de modo positivo e encorajador. Conforme já observado, a ênfase excessiva no comportamento inadequado pode acabar instigando a criança a repeti-lo, além de contribuir para a construção de uma auto-imagem negativa, acarretando em conclusões como “eu sou … (vítima, agressor, opositor, etc.)”.
Apesar de não ser nada fácil, ajudar a criança a viver, enfrentar e superar cada fase de seu desenvolvimento é uma tarefa muito recompensadora!